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Publicação de Estudos

Ao leitor interessado em ter maiores referências sobre os assuntos abordados neste blog, iniciamos uma nova seção para a publicação de estudos. O objetivo é esmiuçar um pouco mais esse complexo tema das experiências psicológicas e mediúnicas.

Inaugura a seção um Estudo sobre os Fenômenos Ditos Mediúnicos.

Participem! Críticas e sugestões são bem vindas!

Marcos vivia um periodo de intenso sonambulismo. Noite após noite, seu irmão e sua mãe observavam seus “passeios” noturnos pelo quarto, levantando-se da cama, indo até o banheiro, olhos semi-abertos, mexendo na torneira, penteando o cabelo, como se já estivesse na hora de ir para a escola. Algumas vezes abria as gavetas, outras vezes parecia perdido e ficava de pé, cambaleante. Bastava pedir algumas vezes e ele voltava para a cama.

Seu irmão Pedro julgava curioso vê-lo perturbado durante o sono, como se a mente permanecesse ativa em preocupações e sem querer acionasse o corpo para suas atividades.

Numa destas noites, como era habitual, Pedro estava acordado até alta madrugada, na sala, usando o computador, quando Marcos se levantou. Devido ao olhar estranho e distante do mesmo, pensou consigo que era mais um ataque de sonambulismo. O rosto de Marcos, porém, revelava o espanto de quem estava preso ou perdido e, paulatinamente, começa a sentir o alívio de voltar em segurança. Sua pergunta marcou Pedro pela sinceridade inexprimivel: “Como eu vou saber agora o que é sonho ou é realidade?”

Marcos sentou-se e começou a narrar uma experiência incomum.  No início de seu sono estava sonhando como sonhava sempre. Um sonho comum costuma ser nebuloso e com poucos detalhes. As coisas fazem sentido no seu contexto e nossa consciência não compara o que vê e experencia com as coisas da realidade diária. É como se a vida fosse aquilo e pronto.

Marcos se via num carro, junto de outros amigos, numa atividade social de entrega de sopa a mendigos, a qual participava na vida real. Estava sentado no banco de trás, era noite e a sonolência começou a invadí-lo. Encostou um pouco mais a cabeça relaxando e acabou dormindo, no próprio sonho.

De repente, acordou.

Sabemos que acordamos devido a lucidez de consciência, a percepção de passado e futuro, assim como a fluidez de nossos pensamentos.

Marcos não tinha a menor dúvida de que havia acordado. Essa certeza, porém, se chocava com um fato, mais do que surpreendente: ele estava em outro quarto, em outra cama, em outra casa! Na vida real consideramos coisas estranhas como coisas estranhas, ao contrário dos sonhos em que o fantástico se apresenta como um fato corriqueiro. Mexeu nos móveis de madeira, abriu as gavetas, outras roupas… nada familiar! Saiu pela porta intrigado e percebeu que estava no segundo andar de um grande casarão, podendo ver, mais a frente no corredor, o corrimão de uma sacada que seguia-se numa escada. Neste momento, ele observa Pedro vindo ao seu encontro. De fato, era o seu irmão, e ao mesmo tempo não era, pois algo lhe deixava evidente que se tratava de outra personalidade. Até o momento ele pensava estar em outro lugar, agora parecia cabível a idéia de uma realidade diversa.
Fez questão de checar, perante si mesmo, o quanto aquilo era completamente real, prestando atenção na propria respiração, nas reações do corpo, na sensação de madeira fria enquanto tocava o corrimão. Um raciocínio lhe veio a mente: devo estar “desdobrado” espiritualmente, utilizando o corpo de outra pessoa como médium, e este deve ser seu irmão, que eu vejo como se fosse o meu. “Calma”, ele disse para o “Pedro”, daquela realidade. “Eu não sou o seu irmão. Eu devo estar usando o corpo dele, mas não sou daqui”. Diante deste inusitado comentário, “Pedro” teria achado graça e com certa tranquilidade começou a perguntar se estava tudo bem. “Você não vai entender… logo vou sair daqui porque devo estar dormindo em algum outro lugar. E seu “irmão” teria redarguido:, “fica tranquilo, o pai e a mãe estão chegango e você conta pra eles o que está sentindo”.

De fato, enquanto Marcos observava aquele nítido e desconhecido lugar, pode perceber, do alto da sacada, “seus pais” entrando pela porta da sala. Ao contrário de Pedro, aqueles de nenhuma forma pareciam seus parentes. Um choque súbito acometeu todo seu corpo. Aqueles dois estranhos lhe causaram muito mais desespero do que toda a situação até agora. Começou a sentir-se como em queda livre, a maneira de uma montanha russa, até perceber que, de fato, estava neste brinquedo. O vento intenso no rosto, a velocidade aumentando e o grito saiu sem palavras…

No meio da queda, enfim, acordou!

Sabemos que acordamos pela fluidez de raciocíonio,  a percepcao agussada, a mente ligando passado, presente e futuro. Esta era uma referência segura de realidade, para Marcos. Curiosamente ele permaneceu um bom tempo, ainda, chorando na cama. Por algum motivo acreditava que deveria ter acordado no banco de trás daquele carro em movimento do sonho…

A dúvida de Flammarion

Uma análise superficial dos pioneiros do espiritismo, pode dar a falsa impressão de que a convicção desses iniciadores era sólida e baseada em fatos mediúnicos indiscutíveis. Muitos acreditam inclusive que os fenômenos eram muito mais objetivos que os obtidos nas reuniões mediúnicas atuais. É certo que a maioria apresentava postura muito rigorosa na seleção dos médiuns e fenômenos, por isso a divulgação de casos bem claros.
As vezes no entanto, os adeptos ficam surdos para análises críticas e contestação de paradigmas feitos por quem critica “de fora”. “O espiritismo não é da alçada da ciência”, dizem, como se não houvessem opiniões científicamente bem embasadas e conhecimentos interdisciplinares, que habilitam quem estuda e portanto critica. Isso parece muito mais a defensiva de uma postura que quer indispor à discussão. Vemos isso claramente quando os adeptos “dissidentes” são taxados de perturbados ou obsedados por tratar os fatos espíritas de forma cientifica, ou seja, da mesma forma que é inerente à natureza de qualquer ciência, observar mais dúvidas que certezas.
Parece ter sido o caso de Camille Flammarion, que não foi somente um grande teórico da Sociedade de Paris, como também um médium muito importante para as pesquisas de Kardec.
Um excelente estudo biográfico sobre Flammarion foi realizado por Jáder dos Reis Sampaio, disponível em http://www.correioespirita.org.br/index.php?option=com_content&task=view&id=46&Itemid=33. Nesse estudo encontramos alguns trechos traduzidos dos originais em Francês, que demonstram a dúvida desse cientista:

“Eu não demorei a observar que as nossas comunicações mediúnicas refletiam simplesmente nossas idéias pessoais, e que Galileu por mim, e que os habitantes de Júpiter por Sardou, são estranhos a estas produções inconscientes dos nossos espíritos”

É interessante observar que mesmo no caso do próprio médium negar a origem espiritual das mensagens que foi instrumento, ainda assim essas idéias são tratadas indiscutivelmente, como revelação inquestionável.

Essa postura crédula da maioria dos adeptos também incomodava Flammarion, tanto que negou assumir a presidência da Sociedade de Paris por esse motivo:

“O comitê me ofereceu suceder a Allan Kardec como presidente da Sociedade Espírita. Eu recusei, dizendo que nove décimos dos seus discípulos continuariam a ver, durante muito tempo ainda, uma religião mais que uma ciência, e que a identidade dos “espíritos” estava longe ainda de ser provada.”
(FLAMMARION, Mémoires biographiques et philosophiques d”un astronome, 1911. p. 498, grifo nosso).

“Há espíritas de uma fé cega, que estão certos de estar em comunicação com os espíritos. Não há argumentação entre eles. Estes não me perdoam de não partilhar de forma alguma de suas certezas, que se tornam crenças religiosas em suas casas. Mas há entre estes, outros que compreendem que apenas o método científico nos pode conduzir ao conhecimento da verdade. Estes se tornaram meus amigos” (FLAMMARION, idem, 1911. p. 239, grifo nosso).

Vemos claramente diferentes posturas perante os fatos, que ainda hoje é bem visível. Simplesmente dizer que os mais céticos não entenderam bem o espiritismo, pode não ser a postura mais prudente. Certamente Flammarion duvidou da explicação para todas as coisas que se propõe o espiritismo kardequiano, pelo próprio exemplo que seguiu em sua vida científica que, humildemente, sabe da gota que conhece e do oceano que ainda tem por conhecer.

Duvidando sem medo

Encontra-se na biografia de Francisco Cândido Xavier, um fato que sempre me chamou atenção e parece passar despercebido para muitos. Antes de iniciar a publicaçâo de suas obras, sob a orientação de seu guia espiritual, Chico colocou fogo em vários anos de intensa produção mediúnica. Centenas de páginas psicografadas, até então, foram queimadas e jogadas no lixo. Certamente deve ter escrito não poucas mensagens edificantes, mas seu guia catalogou-as todas como “exercícios”, e o médium reconheceu isso com humildade.
As biografias ainda relatam o conflito de Chico naquele período, sua dúvida sobre o quanto aquelas produções eram, de fato, provindas dos espíritos e não de sua própria mente.

A partir de um determinado momento, portanto, este médium julgou que as mensagens tinham ganhado individualidade adequada, e distinção suficiente de sua própria psicologia consciente, para serem aceitas como de origem espiritual.

Digno de nota é que esta dúvida parece nunca ter desaparecido totalmente, aceitando, com tranquilidade, as críticas que lhe fizeram sobre mensagens recebidas a respeito de vida em outras planetas. Em entrevista a Marlene Nobre, Chico afirma a possibilidade de ter influenciado a descrição dos espíritos, sobre a existência de seres humanos no planeta Marte, em mensagens psicografadas que falam de cidades, roupas e vida social neste planeta. Informou que estava bastante empolgado com a idéia na época e deve ter influenciado estas comunicações.

Comentei essa declaração, certa vez, com alguns companheiros de movimento espírita, e observei uma atitude bastante generalizada: negar a influëncia do médium. Disseram: “Chico falou isso por humildade, na verdade foi o espírito que se enganou”. Pois esse mesmos companheiros eram da opinião de que existem médiuns com capacidades limitadas, intermediários do outro mundo apenas para socorrerem espiritos sofredores, enquanto Os Médiuns, possuiam uma missão, e colocavam o Chico nesta última categoria.

“Nem todos tem grandes capacidades e nem nasceram para isso” – pensamento bastante cômodo, nem sempre coerente com os fatos. Chico iniciou sua produção com os mesmos conflitos e perturbações que acompanhamos na vida de dezenas de médiuns. O que parece ser um diferencial, é a responsabilidade com a qual lidava com os fenômenos. Jamais se conformou com a hipótese de que toda mensagem escrita, durante o transe, é uma comunição espiritual, o que parece ser a crença da muitos espíritas.

De um modo geral, se o indivíduo está sob uma emoção diferente, se o pensamento difere daqueles que lhe estavam em mente antes da reunião, então concluisse: Mediunidade!. Depois de alguns anos, infelizmente, tudo que se fala e escreve sob estado de transe, é considerado sagrado, intocável e indiscutível.

Chico parecia ter outro diferencial: aceitava críticas. Os companheiros que citei, ao contrário, tinham essa grande dificuldade, se melindravam sempre que alguém lhes apontava um defeito. Como analisar a produção mediúnica de alguém que não é capaz de realizar uma autocrítica? Impossível.

Depois destas experiências pessoais, não estranho mais que existam tantas obras mediúnicas de baixa qualidade, atribuídas a espíritos famosos, da literatura, da ciência ou do próprio movimento espírita. Vitor Hugo ficaria espantado com o nível das mensagens que lhe são atribuídas por aí. Me pergunto se realmente estes médiuns se dignaram a ler alguma coisa das consagradas obras deste famoso escritor francês. “O livro passa uma mensagem positiva, orientações para o bem”. Correto. Mas há uma diferença significativa entre dar bons conselhos e dizer que Victor Hugo está vivo e escrevendo através de mim, sendo, no mínimo, uma questão de injustiça atribuir um conteúdo literário medíocre ao nome deste escritor.

Vontade

Se o mundo me permitisse, minhas vontades voariam ao infinito. Tantas coisas, tantos sonhos. O que sei é que o mundo não permite, pois vejo a completa incapacidade de realizar algumas das minhas “boas” vontades. Quantas boas promessas feitas a mim e a tantas pessoas… e quanta infelicidade por causar decepções!

É certo que muitos me dirão que não era um desejo com “tanta vontade” assim. É, está certo. Mas o que dirão das coisas que almejo fracamente e acabo realizando sem grandes esforços? E o que dizer da persistência, reafirmando periodicamente minha vontade, e mesmo assim, mesmo com toda disciplina, acabo por não realizar essa vontade?

Sinceramente, olho o mundo e o que mais vejo são vontades não realizadas, pelo menos numa proporção maior. “É o estágio evolutivo da humanidade” argumentam alguns, “sua vontade não supera sua animalidade”, “a carne é fraca”.

Isso só vem reforçar o argumento que há outros fatores que exercem sua “vontade”, contrariando a “vontade” consciente.

Instintos? Tendências de vidas anteriores?

Bem, mas o que era nossa vontade antes da formação dessas “tendências”? O que veio primeiro: o ovo ou a galinha?

O raciocínio por aí vai, sem responder para os que prometem e para os que se decepcionam: quais os limites de minha consciência?
“Limites? Ora, o da grandeza de sua vontade!”. O certo é que eu poderia acrescentar, determinando: ou de sua má vontade!

Esse é um raciocínio cíclico, não ajuda a pessoa torturada classificá-la na categoria da “má vontade”.

O que dizer?

Para aqueles que se veem sem vontade alguma para sair de uma situação de depressão profunda?

Posso começar por um ingênuo “sacode a poeira e dá a volta por cima!”, acrescentando um cruel “outros conseguiram, siga os bons exemplos” e completar com um encaminhamento para o tratamento de sua obsessão por espíritos inferiores, “pois é certo que algo o atrapalha”.

É, algo deve lhe atrapalhar mesmo… Talvez aquela voz refreada que queria, simplesmente, que não tivéssemos posturas tão unilaterais, que observássemos outros pensamentos, sentimentos e emoções como algo que também toma parte em nossas vontades, juntamente com a consciência e não subjulgada a ela, e devem ser ouvidas numa atitude saudável de se conhecer e não somente se sensurar por “ainda possuir traços de animalidade”.

Essa “animalidade” rompe diques…

… e acaba por arrazar o que está no caminho! Essa é outra observação que tenho feito.

Incrível como “de repente” a pessoa “surtou”, mudou de vida, “fez isso!”…

Pois é amigos, isso não se explica pelo cíclico argumento da vontade ou má vontade, pelo menos não acrescenta nada.

“Isso é desculpismo, você está se justificando por ter cedido”. Prefiro ficar com a maioria que cede, pois a excessão não pode ser fato que tenta impor regra para a maioria… se é que existam excessões. Aliás, você já buscou ouvir essa voz incomodada, que tanto grita em seu interior, o quanto “ela” é a favor da vida?

Assista on line ou baixe o filme completo “Freud – Além da Alma”, acessando o link abaixo:

http://www.archive.org/details/Pfilosofia-freud383-4

Junto com Copérnico e Charles Darwin, Freud revolucionou a maneira do ser humano ver a si mesmo dentro do infinito Universo. Ao afirmar que as ações e os desejos humanos não são frutos da vontade e da vaidade humana, mas sim do nosso inconsciente, Sigmund Freud abalou o mundo científico e criou uma nova maneira de entender a psique humana. Em “Freud – Além da alma” (1962), John Huston pretende mostrar como as teorias freudianas esboçam a própria vida de um dos maiores gênios da Humanidade. Ansioso em obter respostas plausíveis para aplacar o sofrimento de seus pacientes, Freud enveredou-se à doutrina de Charcot e utilizou-se da hipnose em seus estudos sobre histeria. Embora seus estudos encontrassem a resistência da ala conservadora da Medicina, que via nas teorias de Freud uma ameaça à primazia do ser humano, Freud prosseguiu em sua linha de pensamento e descobriu que o ser humano é dividido entre o Consciente e o Inconsciente, lançando as bases da Psicanálise. Huston, baseado no roteiro escrito pelo filósofo Jean-Paul Sartre (que não consta nos créditos do filme), evitou o risco de fazer uma caricatura de Freud e não abordou a sua vida pessoal, restringindo-se aos seus estudos psicanalíticos. Opção acertada do diretor, pois sua produção não cai na mesmice de filmes meramente biográficos, que se baseiam em informações fragmentadas sobre a intimidade de um personagem histórico e acabam criando indiscriminadamente um mito. É interessante observar como Huston conseguiu articular as descobertas de Freud com as próprias experiências pessoais do psicanalista, como a teoria que desenvolveu sobre o Complexo de Édipo, fundamentando-se na relação com seu pai morto. Com uma linguagem metafórica e onírica, Huston mostra o conflito interior que viveu Freud enquanto tentava penetrar no obscuro inconsciente de seus pacientes, pois temia encontrar o inefável, o impensável. Na verdade, Freud temia encontrar a sua própria essência. Com um elenco notável encabeçado por Montgomery Clift, Susannah York, Larry Parks e David McCallum, “Freud – Além da alma” é um filme acadêmico, inteligente e instigante, que nos permite uma melhor compreensão das teorias freudianas sobre o funcionamento do inconsciente humano e da irrupção do pensamento psicanalítico na sociedade vienense e, depois, no mundo. Um filme tão genial quanto o legado de Sigmund Freud, com legendas em português.

(texto: Internet Archive – http://www.archive.org/details/Pfilosofia-freud383-4)

O ambiente espírita propicia, principalmente nas reuniões mediúnicas, um farto material de experiências. Eu tive muitas, principalmente por que não limitávamos as reuniões para somente as finalidades que geralmente encontramos nos centros espíritas.

Numa dessas reuniões, que eu havia solicitado para me orientar sobre alguns problemas que passava, um espírito amigo, através da mediunidade, foi me induzindo para um transe muito interessante. “Há algo que passa por sua mente agora, fale!”. Tinha sensação muito agradável. Sentia claramente alguém tocando minha cabeça e então um pensamento se fixou e comecei a narrar. Com grande emoção e realidade nos sentimentos, todo um enredo de uma vida anterior que veio à tona.

Vi-me como um jovem lavrador que sonhava em mudar para a cidade. Uma situação, no entanto me “prendeu” naquele lugar. Tive que abandonar o sonho de vida melhor na cidade para ter uma vida e família no campo. Aquele sentimento me angustiava, pois fora forçado pela figura paterna a assumir uma família e um filho, que era meu mesmo.

Desse sentimento angustiado, logo as lembranças voaram no tempo, mostrando o tanto de felicidade que aquela vida pacata me trouxe. O filho e a esposa eram a felicidade de minha vida. Logo aquela paisagem angustiante se tornou num Oasis de segurança. Vi-me idoso nesse mesmo local, mas muito feliz pelo que tinha construído.

A experiência trouxe muito mais detalhes interessantes. Mas o mais importante é que um tanto de sabedoria foi acrescentado ao meu raciocínio junto com essa experiência. Um tanto de serenidade deu-me novo ânimo para pensar nos problemas da vida atual. Posso dizer que influenciou toda uma postura e decisões dessa vida, já que sentia que a experiência anterior provava o melhor caminho para seguir nesta vida.

Um tempo passou após essa experiência, os problemas se modificaram, e novamente retornou aquele sentimento que havia sido motivo para fazer aquela reunião mediúnica de orientação. Busquei nos registros da reunião os ensinamentos já trazidos, algum acalento, mas o sentimento permanecia.

Apesar da vontade de retomar aquela motivação que os espíritos haviam me propiciado, um amigo me alertou para um raciocínio importante, que acho ser a chave para interpretação e ligação dos fenômenos do inconsciente, mediúnicos ou lembranças de outra vida: “vivenciar essa experiência do passado não faz com que o sentimento atual deixe de existir. A função psíquica que foi contrariada nesse passado continua sendo contrariada no momento atual, assim, independente da experiência anterior, esse sentimento é desse momento”.

Explico melhor: para o inconsciente o tempo não existe, tudo é presente, não depende somente da experiência que temos, mas está diretamente ligada a como lidamos com os pensamentos conflituosos que, por esse motivo, se tornam inconscientes e podem gerar neuroses diversas.

Outro fato me fez também repensar essa minha experiência.

Como pode ser muito bem exemplificado pelo filme “Além da Alma”, que conta a história de Freud e a psicanálise, as lembranças obtidas em transes hipnóticos também estão sob o pano de fundo do inconsciente, ou seja, a fantasia “trabalha” para que esses pensamentos continuem inconscientes. Nesse filme a personagem Cecily, paciente do Dr. Breuer, fantasia modificando toda lembrança do momento traumático da morte do pai para manter essa experiência dolorosa fora das lembranças conscientes. Vale muito à pena assistir.

Assim, seja trabalhando com experiências reais ou fictícias, o inconsciente determina sobre como lidamos com tudo isso.

É nesse ponto que, de forma contrária a que muitos dizem, penso que o inconsciente traz características diferentes e se distancia dos fenômenos mediúnicos e lembranças de vidas passadas, que tratam de experiências reais ou lembranças conscientes.

E como fico então com “minha experiência”?

Acho que não fica difícil para o leitor ver que perdemos muito se interpretamos unilateralmente, ou seja, se minha experiência é tomada somente como objetiva, real, posso deixar de encarar as funções psíquicas que estão moldando a lembrança ou o fato mediúnico, além de poder estar sob o fascínio de uma fantasia, como no caso da paciente Cecily. A fantasia, longe de depreciar o fenômeno observado, é fonte interessantíssima de “acesso” aos conteúdos inconscientes, mas concorrem com a identificação objetiva de fatos mediúnicos.

Se observo somente o fato psíquico envolvido, posso deixar fatos novos reais que apontariam para muitos outros desdobramentos, que podem até mesmo identificar os fatores que determinaram a formação de nossas características psíquicas no passado, se forem adequadamente estudados. No caso da mediunidade, olhando somente o fator psíquico do médium, podemos perder a oportunidade de estudar adequadamente a sobrevivência da alma e nossa relação com o mundo dos espíritos.

A única postura que, a meu ver, não cabe na interpretação da “minha experiência” é deixar de olhar para qualquer um dos lados da questão. Isso sim seria perder a oportunidade de aprender.