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Saudades de Saturno

enceladus-por-michael-carrollMe surpreendo, freqüentemente, com os fantásticos recursos da mente em momentos de forte crise psicológica, depressão ou morte iminente. Nestas horas, a psique parece dispor de recursos de alto valor enérgico, fascinantes e significativos, capazes de reestabelecer no indivíduo um sentido vital, uma reintegração com a vida e o universo.
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É conhecida a intrigante viagem de Jung durante seu coma, quando se viu fora do planeta Terra se dirigindo no espaço ao encontro de “uma coletividade a qual ele pertencia”. Já publiquei neste blog um comentário sobre a música Spaceman, sugerindo tratar-se de uma experiência psíquica intensa, cujas imagens são comuns aos que se encontram em busca de si mesmos, reconstruindo uma vida instintiva reprimida e desenraizada. A hora da virada a qual se refere os jovens músicos de Las Vegas compõe o palco do grande drama atual de nossa época, cujo pano de fundo constitui a incapacidade geral de recorrer-se a ritos religiosos na árdua tarefa de manter-se em paz.
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Saudades de Saturno, é um dos capítulos do livro “Uma Mente Inquieta” de Kay Redfield Jamison, doutora em Psicologia e autora deste honesto relato sobre a doença maníaco-depressiva, a qual ela vivenciou profundamente e agora descreve tão bem em linhas biográficas. Gostaria de destacar ao leitor interessado em fenomenologia psíquica o trecho a seguir da página 107:
” As pessoas enlouquecem em estilos idiossincráticos. Talvez não surpreenda que eu, como filha de metereologista, me descobrisse, naquela gloriosa ilusão dos dias do alto verão, deslizando, voando, de quando em quando fazendo um súbito desvio em meio a monte de nuvens e ao éter, passando por estrelas e atravessando campos de cristais e gelo. Mesmo agora, consigo ver com a visão bastante peculiar da minha mente uma extraordinária dança e fragmentação da luz; cores inconstantes mas arrebatadoras dispostas sobre quilômetros de anéis circulares; e as luas quase imperceptíveis, de uma palidez meio surpreendente, luas dessa roda de Santa Catarina sobe forma de planeta. Eu me lembro de cantar “Fly Me to the Moons” enquanto passava pelas luas de Saturno e me considerava extremamente engraçada. Vi e vivenciei o que só havia existido em sonhos, ou em fragmentos espasmódicos de aspiração.”
A música Spaceman também destaca um voar para longe demais do chão, raios brancos que passam como um flash, travessia através de bombas e satélites. E destaca que aquela foi uma noite solitária, aquela foi a hora da virada.
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Experiências como esta são associadas a estados alterados de consciência, obviamente. Comentei a visão de alguns sobre a  música ser fruto de uma “viagem” no mundo das drogas, ou talvez, um retorno a vida após tentativa de suicídio. O processo de individuação, no entanto, onde a mente se depara, ou se confronta, com uma verdadeira inundação de conteúdos inconscientes, pode favorecer vivências como esta sem que drogas ou estados patológicos se façam presentes.
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Jung analisa uma destas “grandes visões”, a visão do “Relógio do Mundo” em Psicologia e Alquimia, ao longo da terapia do Físico Nobel, Wolfgang Pauli. Jung observa que  “esta visão extraordinária causou no sonhador a mais profunda e duradoura impressão, uma impressão de “suprema harmonia”, segundo ele mesmo disse”.
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O conflito psicológico, a “encruzilhada moral”, parecem constituir o núcleo gerador ou propiciador de tais experiências. O estado de tensão de opostos chega a um grau insuportável, onde somente o romper completo com a realidade permite uma nova disposição de vida. A linha entre este estado e a morte é muito tênue, portanto. No suicídio o romper com o real é concreto, enquanto nestas experiências rompe-se simbolicamente com a realidade.
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O impacto de tais vivências na vida da doutora Kay foi grande o suficiente para que durante muito tempo ela deixasse de tomar regularmente o lítio, e assim evitasse não só os efeitos colaterais, mas principalmente, almejava não se distanciar deste “mundo de Saturno” e suas maravilhas. No desenrolar de um desenvolvimento psicológico normal um confronto com o inconsciente constitui a hora da virada, um momento de grande mudança interna, para o psicótico, no entanto, o outro lado assume facilmente a condição de real, destruindo seu vínculo com a família, trabalho e sociedade. Em ambos os casos a psicoterapia é uma ponte integradora de conteúdos aparentemente tão desconexos. As reflexões de Kay, na página 108 e 109 da citada obra, são mais que oportunas para as discussões deste blog:
“Era real? Bem, claro que não, não em nenhum sentido expressivo da palavra “real”. Mas a lembrança ficou comigo? Sem a menor dúvida. Muito depois que minha psicose se dissipou e que as medicações assumiram o controle, isso se tornou parte daquilo que as pessoas recordam para sempre, envolto por uma melancolia quase proustiana. Muito tempo depois daquela longa viagem da minha mente e alma, Saturno e seus anéis de gelo adquiriram uma beleza elegíaca, e eu não vejo a imagem de Saturno agora sem sentir uma tristeza intensa pelo fato de ele estar tão distante de mim, por ser tão inacessível sob tantos aspectos.
“Minha família e meus amigos esperavam que eu acolhesse bem a “normalidade”, que eu apreciasse o lítio e que encarasse com naturalidade o fato de ter energia e sono normais. No entanto, se você já teve as estrelas aos seus pés e os anéis dos planetas nas mãos, se está acostumado a dormir quatro ou cinco horas por noite e agora dorme oito, se costumava passar a noite em claro por dias e semanas a fio e agora não consegue, enquadrar-se nos horários convencionais é uma mudança muito real, pois, embora sejam confortáveis para muitos, são novos, repressores, aparentemente menos produtivos e exasperadoramente menos excitantes. Quando eu me queixo de estar menos animada, com menos energia, menos alegre, as pessoas dizem que agora estou como o resto do mundo, querendo, entre outras coisas me tranqüilizar. Mas eu comparo meu eu atual com meu eu anterior, não com as outras pessoas. Além disso, costumo comparar meu eu atual com o melhor que já fui, que é quando estive ligeiramente maníaca. Quando sou meu eu atual “normal”, estou a enorme distância de quando estive mais alegre, mais produtiva, mais veemente, mais expansiva e efervescente. Em suma, para mim mesma, é difícil me manter à altura das minhas expectativas. (E sinto muita falta de Saturno).(os negritos são meus)

Psicologia pra quê?

Ainda me lembro do espanto de muitos quando o espírito de Joana de Ângelis começou a escrever obras de cunho psicológico através do médium Divaldo Franco. Ouvi coisas do tipo: “Qual será a intenção real deste espírito…”, “Pra que relacionar Psicologia com Espiritismo? Díficil de ler, qual a utilidade?”. O tempo mostrou que Joana conhecia a necessidade do público, pois tais comentários partiram de pessoas que se revelaram melindrosas, neuróticas e ciclicamente capazes de causar todo tipo de problema de relacionamento. Se afastavam inconcientemente destes livros pelo risco de revelarem o que ignoravam, no caso, a própria sombra. Utilizo o termo no sentido junguiano, isto é, como o aspecto negativo da personalidade. Este aspecto quando não reconhecido em si mesmo, é projetado e observado pelo indíviduo como se fossem defeitos do outro. Não foi difícil perceber que certas pessoas “boas demais” eram demasiadamente irritáveis e que os colaboradores de “bom-senso” tomavam todo cuidado para não “incomodá-las”. É evidente que temos sempre um olhar complacente para tais atitudes, afinal, a pessoa é “tão boa”, faz tanta “caridade”, “não vale a pena criticá-la por esses momentos infelizes”. Para encobrir os efeitos negativos utilizava-se a expressão “energia”. A pessoa não foi grosseira, estúpida ou autoritária, mas sim agiu “com energia”. Ninguém medita no efeito disso a longo prazo: o sujeito começa a acreditar que não comete mau algum!

Essas ídéias povoavam minha cabeça enquanto ouvia a dor sincera de um amigo evangélico: “Como pôde ser tão falso durante tanto tempo? Encobrir tamanha monstruosidade com atos de caridade?!” Lamentava a prisão do líder maior de sua comunidade religiosa, acusado por crimes de pedofilia. Ficou revoltado porque tentei compreender o comportamento do religioso americano, a quem se referia.

– Afinal, argumentei, que fez este homem senão considerar a bondade como sendo um conjunto de atos imitáveis, um pacote de comportamentos exteriores, gestos sem-fim de dedicação à sua comunidade? Pensou haver vencido o mal porque atribuiu um nome para ele. Há espíritas que fazem o mesmo, só que ao invés de “diabo” se referem a obsessores ou pessoas problemáticas, de quem devem se afastar. Há os que acreditam que egoísmo, orgulho e luxúria são pecados dominados porque se consegue apontá-los no outro. Pois esta mesma comunidade ingrata se esqueceu do quanto seu líder sufocou conflitos íntimos, abafou silenciosamente o “demônio” dentro de si e acreditou plenamente nos elogios para conseguir direcionar sua energia. Quem pode negar o bem que adveio disso? Para se conhecer, e talvez evitar a própria queda, teria de “perder” um tempo precioso atentando para seu mundo inconsciente, a se expressar através de fobias e irritações, além de sonhos perturbados e recorrentes. Provavelmente entraria em dilemas profundos, o que amainaria sua produção social. Perderia prestígio no presente para ganhar equilíbrio no futuro. Mas como a psiquê tem suas próprias leis, uma hora o religioso foi pego em seu crime compulsivo, numa situação que ele próprio devia lamentar todos os dias, por estar muito acima de suas forças conseguir evitá-la. Ignorava que, no campo psicológico, todo extremo provoca seu contrário, transformando toda dedicação cega a uma virtude em um convite para a devassidão oposta.

Meu amigo ouviu assustado e rejeitou sumariamente a interpretação, apesar de estudar psicologia. “Aquele homem é uma víbora, um falso profeta, um lôbo em pele de cordeiro” – concluiu. E pensei comigo: “Realmente, psicologia para quê, se já temos uma forma tão “evangélica” de julgar nosso próximo?”

Dormindo Acordado – Parte 3

A interpretação simbólica de alguma experiência espiritual parece sempre negativa para um leigo em psicologia . Sem dúvida encontrei exceções, mas de um modo geral as pessoas querem ter uma resposta definitiva na manga, algo que defina a experiência como sendo isso ou aquilo, sem sobrar margem para a dúvida. Fantasia ou realidade, imaginação ou fatos objetivos? Todo o preconceito moderno a respeito da Psicologia parece residir nesta visão dualista, onde as coisas só podem ser reais ou não. Como se soubéssemos o que isso quer dizer quando afirmamos: isso é real!

A ficção moderna  tem evidenciado que a maior parte do que é importante e  valoroso para o ser humano, dificilmente pode ser medido por análises lógicas e críticas racionais. E  impossível, através de simples relações de causa e efeito, saber exatamente como cativar o público. A exploração cinematográfica da criatividade inglesa e japonesa demonstrou que estamos longe de dominar os efeitos dos símbolos humanos. Os estouros de bilheteria acontecem de forma assustadora quando segue-se fórmulas abrangendo mistério, aventura, simbólica e tecnologia, mas a dose certa de cada elemento permanece ainda nas mãos apenas dos grandes genios.

A análise do simbolismo das chamadas vivências de sair do corpo, de ser levado para fora da realidade, pode causar simplesmente o insight necessário para mudar a rotina e o destino de um indíviduo isoladamente, mas a criatividade de alguns pode traduzir a experiênica em termos coletivos, como uma obra de arte, uma teoria científica, uma música, um romance, um filme ou uma religião, sem que isso reproduza o contexto completo de quem a experimentou. Também não há garantia de que todos serão “tocados” da mesma forma pelo produção coletiva. Num momento de inspiração alguém pode produzir a beleza sublime de uma grandiosa sinfonia, mas não é difícil encontrar quem durma rapidamente depois de começar a ouvir ela tocar. Como sabemos de sobra, o impacto e a riqueza de uma obra depende de vários elementos, sendo o Tempo, inclusive, um deles.

E sempre haverá os que pressentem nessas experiencias algo de profundo e místico, e procuram traduzir isso em termos de linguagem objetiva e científica, alegando que há fatos que justificam a teoria de uma realidade paralela a nossa. Em paralelo as explicações espirituais, alguém me disse, em certo momento, que Marcos na verdade teria sido abduzido por extra-terrestres. Aparentemente ele não estava sozinho nesta interpretação. A canção Spaceman do grupo The Killers aponta para o mesmo caminho:

“Começou com uma luz baixa
Quando me dei conta, fui arrancado da minha cama
E ai eles tiraram meu
tipo sangüineo
Deixaram uma estranha impressão na minha cabeça

Sabe, eu tinha esperança
De conseguir deixar essa encruzilhada sombria para trás
Quando eles me abriram
Acho que mudei de idéia

E, sabe, posso ter voado
para longe demais do chão dessa vez
Porque estão me chamando pelo meu nome

E os raios brancos passando num flash
Desconsiderando bombas e satélites
Oh, aquela foi a hora da virada
Aquela foi uma noite solitária

O criador de estrelas diz que não é tão ruim
O criador de sonhos vai enlouquecê-lo
O homem do espaço diz ”todos olhem pra baixo
Está tudo em suas mentes”

A partir daqui o autor deixa claros indícios de que conseguiu fazer relação entre a imagem e seu significado psicológico. Quem conhece a técnica da imaginação ativa sabe que essa capacidade é essencial para que haja um avanço efetivo na assimilação do significado dos símbolos. Quando isso não acontece ficamos apenas com a contemplação das imagens. de uma forma estética ou religiosa, como acontece por exemplo, no capítulo da obra Nosso Lar, de Francisco Candido Xavier, quando o personagem desencarnado se depara com a explicação de que a água, no mundo espiritual, é um fluido criador. Ele emite  expressão do tipo: “nunca aprendi isso antes da Terra”, como a querer indicar a importancia do que estava ouvindo , mas sem conseguir traduzir o sentido, nem mesmo para os próprios espíritas, que passam por cima de trechos como esses, evidentemente simbólicos, alegando que se trata de interferencias da mente do próprio médium. O leigo em psicologia desmerece dizendo que são meras fantasias. O autor da música faz uma bela critica a essa visão reducionista, ao cantar que o homem do espaço afirma que tudo é mental. De fato é um “spaceman”, pois se  julga conhecedor da verdade num mundo de constantes pesquisas e descobertas. Ainda há muito a se avançar, desde que nenhum dos envolvidos apresente de antemão uma filosofia retirada do armário que se diga capaz de explicar o Universo.

Da minha parte, vejo nestes relatos espirituais o símbolo em sua expressão Formal, deixando evidente a dificuldade positiva de expressar seu Significado. Neste caso da água, e seu poder mágico, fica fácil entender o fascínio do médium pela idéia quando compreendemos o significado que ela teve por mais de um milenio para os alquimistas. Estes não falavam dos poderes da água como pertencentes a uma realidade paralela ou espiritual, mas como algo possível de ser visto, aplicado e transformado em suas experiencias de “laboratório”, em que buscavam como resultado a pedra filosofal, ou a panacéia, capaz de todas as curas. Os espíritas tem pretensões mais modestas, e defendem que a água assume certas propriedades curativas apenas em reuniões mediúnicas especiais, sendo possível a cura de certas enfermidades, ou pelo menos o auxílio na recuperação do doente. O uso da água benta continua sendo de grande eficácia na expulsão de demonios, segundo exorcistas  católicos experientes. Nem é preciso falar do efeito potencialmente amplificado que certos elementos assumem ao serem diluídos na água, conforme defendem calorosamente os adeptos da homeopatia. Deixo estes poucos exemplos como amostra de que o símbolo não perdeu seu peso e tende, ainda hoje, a ser visto objetivamente.

O autor da música prossegue relatando que volta ansioso para a realidade diária, mas denuncia várias elementos que também figurei na experiencia de Marcos: o momento de conflito (entre o demonio e o profundo mar azul), a incerteza de ter conseguido se libertar definitivamente (mas escuto aquelas vozes a noite) e a certeza de ter vivido algo real, mas impossível de provar (porque não foi televisionado):

Bem, agora estou em casa de novo
Ansioso por esta vida que vivo
Sabe, isso vai me assombrar
Então hesitarei a essa vida que tive

Você pensa que poderia atravessar
Você está preso entre o demonio e o profundo mar azul
É melhor você olhar direito
Antes de dar esse salto

E, sabe, estou bem
Mas escuto aquelas vozes à noite
Às vezes isso justifica minha reinvindicação

E o público não dá bola para a minha transmissão
Porque não foi televisionada
Mas aquela foi a hora da virada
Numa noite solitária

Por que discutir?

Não foram raras as vezes que encontrei, no movimento espírita, uma reação contrária à intenção de discutir os métodos ou teorias espíritas. Basicamente essa reação se enquadra no entendimento de que os céticos são ainda imaturos perante as verdades espirituais e consequentemente são muito vaidosos, “e só os humildes conseguem enxergar a verdade”. Ainda argumentam que, em consequência desses atributos morais dos céticos, espíritos obsessores influenciam e perturbam as suas mentes.

Diante de todo esse julgamento moral, uma única resposta é dada para as críticas dos mais céticos: oração e paciência, pois de outra forma seria “faltar com a caridade”. É certo que muito dessa percepção se baseia no fato de que os céticos trazem muito mais dúvidas que certezas. Como ter dúvida aquele que já encontrou a verdade?

discussão

Gostaria, no entanto, de apresentar outro lado dessa questão.

Certamente a discussão dos métodos e teorias é uma forma de atuar do cientista, para que possa separar a atividade científica da crendice e superstição. Para tanto, segundo Patrick J. Hurley (1), o cientista busca primeiramente discutir as provas fatuais, procurando saber sobre a objetividade com que essas foram colhidas e sobre a integridade que envolvem honestidade na reunião e apresentação de provas e pensamento lógico e honesto na resposta aos problemas teóricos que surgem ao longo do caminho”. Algumas possíveis falhas lógicas “podem ser encontradas na falta de resposta da comunidade de praticantes aos problemas que envolvem a adequação, a coerência e a consistência externa das hipóteses relativas às suas práticas”.

A atenção às falhas lógicas constitui ainda o foco principal dos cientistas:

“Quando surgem em ciência, a comunidade de cientistas muda para o que o filósofo Thomas Kuhn chama um modo de solução de quebra-cabeças, e os cientistas trabalham neles com grande persistência até que os problemas sejam resolvidos. Esta atividade de solução de quebra-cabeças conquista a atenção da maior parte dos cientistas durante a maior parte das suas carreiras e constitui o que Kuhn chama «ciência normal». Além disso, é precisamente o fato de a ciência normal consistir na solução de quebra-cabeças, defende Kuhn, que a distingue da pseudo-ciência.”

Podemos encontrar belíssimos exemplos de ampliação do conhecimento pela ciência, partindo dessa prática. Por que, então, a discussão das falhas lógicas é tão repudiada no movimento espírita?

Muitos podem argumentar que os céticos não conhecem o espiritismo. Essa afirmação é falsa como já demonstramos em outros posts.

Outros podem dizer que os argumentos apresentados são muito frágeis e não merecem o dispêndio de tempo na contra-argumentação. Para esses, indico a leitura dos diversos comentários desse blog, onde breves discussões puderam ser travadas, indicando que muitos não pensam assim. Além disso, esse sim pode ser considerado um argumento muito vaidoso, ou simplesmente preguiçoso, que pode ser uma verdadeira armadilha seguindo um “voo para a superstição” (idem 1).

Outros ainda podem dizer, baseados no conhecimento espírita, que não cabe discussão quando se trata de pessoas obsediadas, que já são bastante perturbadas por espíritos inferiores, precisando mais de caridade que discussões. Mas pergunto se, quando obsedado, os argumentos usados deixam de ter lógica só pelo fato de que, quem defende, não estar em condições? Não são os argumentos que devem ser discutidos antes da desclassificação do argumentador? Isso sim não é o “faltar com a caridade”?

Os mais bem intencionados podem dizer também que é melhor aplicar esforços para o bem comum, buscando o esclarecimento e consolo que o mundo precisa, do que alongar discussões intermináveis. Por melhor que seja essa intenção demonstrada, além de desmerecer a forma de conquistas de conhecimento pela ciência, o conceito de “bem comum” é bastante discutível, pois permanecer na ignorância sobre um determinado assunto não parece ser o melhor e pode, contrariamente, acirrar posições demasiadamente imobilizadas perante o conhecimento.

É certo que os esforços empregados na discussão não são necessariamente para reforçar o que se pensa conhecer, mas muitas vezes para mudar nossa forma de ver o mundo, seja para que lado esse conhecimento aponte. O procedimento científico atual talvez não seja a melhor forma para ampliarmos nosso conhecimento sobre o universo, mas se apresenta, dentre as opções existentes, a melhor ferramenta disponível. Assim parece ser uma contradição e um desperdício não aproveitar da possibilidade da discussão honesta e livre, apontando nossas dificuldades teóricas e ao mesmo tempo indicando outras possíveis soluções, num esforço conjunto de melhor conhecer a realidade humana, já que ciência se faz, de forma obrigatória, coletivamente.

(1) Patrick J. Hurley, A Concise Introduction to Logic, Wadsworth, Belmont, 2000, pp. 588-606. (capítulo disponível traduzido em:  http://www.filedu.com/pjhurleycienciaesupersticao.html)

Maiores do que todos os perigos físicos são os efeitos tremendos das idéias ilusórias às quais nossa consciência mundana nega qualquer realidade.

– Carl G. Jung. – A Natureza da Psique

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1. Não se trata  do que eu penso, mas de um sentimento. Assim falamos quando as coisas vão além da lógica e passam a ganhar um valor. Valor positivo ou negativo, bem ou mal, certo ou errado, melhor ou pior, etc. Para o Tipo Sentimental esta é sua função psicológica predominante, aquela através da qual sua relação com o mundo se estabelece e concretiza. Marcos é deste tipo. Sua ligação com a realidade se faz de uma forma natural e sem questionamentos, como se a vida não pudesse ou não precisasse ser de outra forma. As diversões do mundo, os hábitos do mundo, os sonhos do mundo, têm sempre algum espaço em seu coração, uma vez que conectam os indivíduos pelos elos do sentimento, função coletiva por natureza.

2. Um valor coletivo é determinante para um Extrovertido Sentimental. Ele jamais questionaria, por exemplo, o valor da família, da fidelidade, do sacrifício e do amor. Somente um Pensativo pode, sem que lhe cause nenhum mal-estar ou desconforto, repensar o conceito de família ou simplesmente abandoná-lo em favor de uma disposição individualista. O sentimental somente aceitaria tal abandono se fosse em favor de algum outro valor coletivo. Abnegação, dedicação a uma causa, celibatrismo religioso, por exemplo. Há santos que abandonaram mulher e filhos para se tornarem santos! O sentimento acolhe com piedade tal gesto de “sacrifício”. Afinal, a santidade é boa, e pronto.

3. Para Marcos a importância das pessoas também se relaciona com o sentimento que inspiram. Não há porque pensar em outras qualidades, em outras motivações ou intenções, se a pessoa lhe inspira algo de ruim. Seria hipocrisia, por exemplo, permanecer numa relação em que o outro é um cretino, egoísta ou orgulhoso. Para outros temperamentos, uma relação como esta pode muito bem ser levada por anos há maneira de um negócio, um comércio ou um acordo simplesmente. Mas o sentimental não teria “estômago”.

4. Obviamente esta relação predominamente com o mundo através do sentimento, se faz através da exclusão de uma parte considerável da natureza humana, assim como a exclusão de certos pensamentos que podemos ter a respeito do outro,  de certas idéias sobre como nós e a vida poderíamos ser. Não há dúvida que inúmeras qualidades e defeitos permanecem, em parte, ou completamente, ignorados para o Tipo Sentimental, da mesma forma como o Pensativo costuma desconhecer  todo um mundo de experiências afetivas, de relações e carinhos, que seu sentimento infantil afasta por medo ou indiferença.

5. Marcos, por exemplo, nem mesmo gostaria de saber quais são as reflexões que se pode fazer sobre certos assuntos “filosóficos demais”. O certo e o errado já está muito certo e delimitado pelos valores que tem “preservado” a sociedade. Tais valores, porém, podem caracterizar um forte abuso moral, além de limitação da felicidade individual, quando falamos de casos particulares. Isso se faz mais claramente doloroso no que se refere a visão que temos de nossos pais e das escolhas que fizeram. Não há dúvida que o sentimento obscurece ou ilumina demais o conceito que temos sobre os mesmos. Olhar um pai e mãe como simples seres humanos é uma tarefa díficil para qualquer mortal, mas se torna uma proposta angustiante para um sentimental típico.

6. O sonho de Marcos, por isso mesmo, coloca-o numa situação simbólica, mas que expressa diversos elementos do ambiente psicológico em que ele vivia inconscientemente. Há algum tempo se preparava em seu inconsciente a necessidade de um choque ou confronto, para que levasse em consideração aquele outro lado das coisas e das pessoas que ele havia deixado de fora em seus julgamentos habituais. Inteligente e educado como é, não havia necessidade de olhar as situações sobre outros pontos de vista. Neste período de sonambulismo ele estava, não por coincidência, realizando aquilo que os centros espíritas chamam de “desenvolvimento medíunico”. Era considerado pelo dirigente da reunião um “médium entupido”, pois estava “envolvido” pelos espíritos, mas não dava comunicação. Obviamente a mediunidade exigia um nível de inconsciência e introspecção difíceis de serem alcançadas por um extrovertido. Ligado a realidade externa a qual dedica toda sua energia, precisa de um doloroso treinamento para tomar contato com um “outro lado” a qual desconhece ou nem toma contato no seu dia-a-dia. A “realidade espiritual” só lhe faz sentido se for, de fato, uma outra realidade, tão física quanto a nossa a qual ele possa tocar e se relacionar. A subjetividade do Introvertido, sua intimidade consigo mesmo, a falta de ligação com o mundo, o culto da própria alma, parece uma forma de comportamento egoísta e sem sentido para o extrovertido, que procura por valores no mundo, dividindo-os com o mundo.

7. Não havia forma melhor do inconsciente de Marcos se apresentar a ele, senão dizendo: olá, estou aqui e sou mais do que um sonho. De fato, é significativo que sua experiência tenha ocorrido após ele dormir dentro de um sonho. Para a maioria das pessoas o sonho não passa de fantasia. A intenção parece ter sido lhe deixar claro a diferença, pois os conteúdos do inconsciente tem sua realidade própria e deveriam, no mínimo, serem colocados na mesma condição de nossa realidade física. Se quisermos mostrar para uma pessoa a força destes contéudos, basta exibir as barbáries cometidas de forma coletiva, ou na solidão de laboratórios refinados, durante a Segunda Guerra Mundial. Os valores do mundo caíram como se fossem meras fantasias perante as forças descomunais de um insconsciente longamente reprimido e “educado”. Podemos ler e reler as páginas da história procurando uma explicação lógica ou um bode expiatório para o que ocorreu nesta guerra, mas nada justificaria, por exemplo, que cientistas, a título de melhoria de raça, abrissem cirurgicamente uma pessoa ainda viva e tentassem juntar seus nervos com os de outra pessoa para ver os resultados. Os valores que normalmente nos abalam, o sentimento inspirado pela dor e sofrimento do outro, parecem completamente ausentes nestes casos, uma vez que generais, ou mesmo soldados, nem sempre estavam sob as ordens diretas de seus superiores e muito menos sob pressão.

8. Nesta “viagem psíquica” de Marcos, “Pedro”, seu irmão, parecia ser o mesmo, mas a personalidade diferia. Os sonhos costumam utilizar esta troca de formas, onde o marido se torna pai, o pai se torna filho, como a ressaltar a imagem que projetamos nas pessoas. Observar os outros além de suas “personas” não é tarefa fácil, mas foi um exercício menos doloroso para Marcos, no que se refere ao seu irmão. Quando a imagem que projetamos em alguém é superada, temos, de fato, a impressão de que não a conhecíamos realmente, de que havia um lado ignorado. Por isso seu raciocínio na hora, de que ele mesmo era um espírito atuando sobre o corpo de outra pessoa, pois confrontar-se com a psicologia de alguém, ir além de nossas ilusões a respeito do outro, também nos faz refletir sobre nossa própria dualidade. Quando olhamos a realidade de uma forma diversa, devido a alguma transformação íntima, temos o hábito de afirmar: “sou um homem novo”. Tais experiências costumam ser místicas e são compartilhadas por muitas pessoas que passam por processos de quase-morte. São conhecidos os casos em que sobreviventes retornam com uma visão de vida completamente diferente.

9. Se observar o outro lado de “Pedro” foi uma tarefa razoalvemente fácil de lidar, aceitar a o lado oculto de seus pais foi uma tarefa aparentemente árdua demais proposta pelo inconsciente, o que já se refletia no próprio estress que Marcos carregava ao ir dormir.  Foi como se o terreno estivesse preparado, cuidadosamente, para que Marcos encarasse (ou não) a mais dura realidade, para qualquer ser humano: ter que reconhecer que não conhece os próprios pais. A visão idealizada que temos dos mesmos pode nos manter presos numa infantilidade nociva, a qual, de um modo geral, somente um choque profundo rompe com a fantasia e dependência, nos permitindo tornar adultos. Há momentos em a vida faz isso por si mesma. Aposto, por exemplo, que os filhos de alguns corruptos famosos de nossa política não possuíam uma visão negativa de seus pais. Chamá-los de cretinos e ladrões deveria ofendê-los profundamente. Mas há casos em que ver nossos genitores de uma forma crítica não contribui em nada para o avanço e justiça da sociedade, mas somente para o nosso próprio desenvolvimento. Nestes casos, a dor e energia necessária para observá-los sem o “véu da inocência” se tornam gigantescas e não o faríamos se não fosse por uma aguda necessidade íntíma de auto-realização.

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10. Todo o ambiente estava preparado. A sequência do sonho apresenta a solução do enigma dos inúmeros contos a respeito de casas mal-assombradas.  Uma casa estranha e antiga, simbolizando familiaridade e desconhecimento, surpresas e possibilidades; a necessidade de apoio e esclarecimento. Nestas horas pensamos naturalmente em nossos pais. É pra onde nos voltamos quando a vida se torna dura e não receptiva; pra quando estamos numa encruzilhada moral. Mas estes pais adentram a sala diante de Marcos e se mostram completamente diferentes. O choque que ele sofre parece é fora de propósito ou, extremamente exagerado, se não considerarmos o caráter simbólico de toda esta experiência. Seu inconsciente lhe apresenta, justamente através de seu irmão pensativo (função psicológica que ele reprimia)  o lado oculto de seus pais. Em tratamentos psicológicos eu pude observar, mais de uma vez, o quanto as pessoas “surtam” quando falam de seus familiares de uma forma crítica. Certos pacientes choravam, outros simplesmente emudeciam, outros optavam por permanecer na ignorância e paravam com a terapia. Havia aqueles que ficavam irritados durante toda a sessão e os que fingiam não se importar, mas não conseguiam disfarçar por muito tempo. O choque que Marcos levou foi bastante natural, portanto, para qualquer psicólogo com um pouco de experiência clínica.

11. A fuga da situação se faz através de uma queda, na montanha-russa, que simboliza a liberdade de voar e correr mas limitado pela fantasia. Em outras palavras, Marcos evitava aquele confrotno fugindo para uma liberdade ilusória.  A sensação de queda é comum no acordar dos sonhos de muitas pessoas. O inconsciente não deixa de ser um aqui ou um alí para nossa psique, e por isso aparece num nível diferente perante a consciência. Sair correndo do lado oculto de nossos pais é algo que o leitor deve estar estranhando completamente, mas por hora sugiro a lembrança dos ínumeros temas relacionados a bruxas e madrastas, em que a imagem materna se mostra nociva e perseguidora, ostensivamente. No blog blueshell.blogspot.com/2004_07_01_archive.html, o autor expressa exatamente a mesma temática, com o mesmo contexto psicológico,  inclusive utilizando, sincronisticamente, a mesma figura do casarão de madeira, a queda da escadaria, a fuga da mulher e a busca pela liberdade. Ressalto que só conheci o blog do Blue Shell quando já procurava fotos para ilustrar este post.

12. O sonho de Marcos denunciava, de certa forma, o encontro com aquelas imagens fascinantes do inconsciente coletivo, já antigas conhecidas do psicólogo analítico, que se apresentam como conteúdos divinos ou diabólicos para nossa consciência,  personificadas, segundo minha experiência,  nas reuniões mediúnicas, na forma de certas comunicações de “sabedoria, prudência e verdade”, que se fazem valer na boca de jovens como Marcos. Através da mediunidade ele também pode tomar contato com essas imagens várias vezes. O  contato com elas, semanalmente, equivalia a uma espécie de insight, produzindo uma sensação de paz e harmonia consigo mesmo e a vida. É como se ele tivesse encontrado um Cristo ou uma Santa Maria, só que agora dentro da lógica espírita, que mantém uma relação sagrada com certos seres que, teoricamente, são seres humanos, que um dia já foram inferiores como nós, mas agora são tão elevados que quase não podemos ser como eles. Curiosamente essa forma de vê-los também nos é comum quando somos crianças e falamos empolgados a respeito de nossos pais. O não confronto com os dois lados dessas imagens psicológicas,  nos leva a uma atitude infantil perante a vida, pois a totalidade da psique não se faz apenas integrando a  “luz”, mas igualmente sua “sombra” correspondente. Essa falta de confronto com a sombra também é característica  das reuniões mediúnicas, já que raramente eu ouvia um participante reconhecendo as próprias fraquezas como sendo próprias, uma vez que os desequilíbrios graves são sempre culpa dos espíritos. Nos casos clínicos é possível observar como esta fuga do aspecto sombrio do inconsciente produz toda sorte de comportamentos compulsivos e pensamentos obsessivos. Ao invés dos espíritos, a culpa recai nos pais, no vizinho, no patrão, na esposa, etc. Ressalto que um psicólogo em ambientes religiosos acaba sendo o confidente deste outro lado das pessoas, onde certas perversões sexuais e comportamentos agressivos se chocam, periodicamente, com a vida elevada que almejam alcançar.

Continua…

“Isso é bom pra quem?”

Muito frequentemente tenho recebido a acusação acima para desvalidar os argumentos que apresento nos posts. “A idéia para ser verdadeira tem que trazer o bem para as pessoas”, seguindo o que Kardec usava como bússola: “apresente o que explique melhor, o que faça mais bem, torne o homem mais feliz e eu seguirei”.

É certo, no entanto, que nem sempre o conhecimento sobre o universo traz alguma felicidade ao ser humano, simplesmente ele descortina uma realidade na qual vivemos. A existência do fato é independente do julgamento moral que possamos fazer dele, assim como o possível uso desse conhecimento.

Talvez fique mais claro para o leitor exemplificarmos num caso prático.

bem e mau

Para ver a aplicação dessas idéias e saber se “elas trazem o bem”, segue um exemplo simples de conflito psicológico dado por C. G. Jung:

“Bom exemplo é o da secretária que tem ciú­mes de uma das sócias do seu patrão. Habitual­mente ela se esquece de convidar esta pessoa pa­ra reuniões, apesar de o nome estar nitidamente marcado na lista que utiliza. Se interpelada so­bre este fato dirá, simplesmente, que se “esque­ceu” ou que a “perturbaram” no momento. Ja­mais admite — nem para si mesma — o motivo real de sua omissão. (…)

Muitas pessoas superestimam erradamente o papel da força de vontade e julgam que nada poderá acontecer à sua mente que não seja por decisão e intenção próprias. Mas precisamos aprender a distinguir cuidadosamente entre o conteúdo intencional e o conteúdo involuntário da mente. O primeiro se origina da personalida­de do ego; o segundo, no entanto, nasce de uma fonte que não é idêntica ao ego, mas à sua “outra face”. É esta “outra face” que faz a se­cretária esquecer os convites.” (Livro: O Homem e seus Símbolos).

Continuemos esse cenário que Jung delineia, mas agora numa sessão mediúnica em que essa secretária é médium. Como o leitor não deve ter duvidado do fato dela ter se esquecido de chamar a tal sócia do patrão, talvez também não duvide que esse ciúme continue existindo, mesmo nesse tipo de reunião onde se prega deixar do lado de fora todos os acontecimentos negativos do dia.

Nessa reunião um “espírito” pode se manifestar, expressando esse ciúme, não claramente aceito pela consciência.

Para saber como ocorre esse processo é fundamental entender o papel da fantasia perante os conteúdos inconscientes. Podemos exemplificar isso com um sonho comum: se estamos com sede enquanto dormirmos, a psique pode fantasiar essa necessidade fisiológica num enredo e cenário de deserto que se desenha no sonho. Para qualquer outra necessidade fisiológica ou psíquica essa mesma dinâmica é válida e possível de ser verificada. No caso da secretária a necessidade de lidar com esse sentimento “sombrio”, conduziu a fantasia de acordo com o esperado para uma sessão mediúnica, ou seja, a manifestação de uma personalidade desencarnada, expressando aquele sentimento.

A fantasia não é presente somente nos sonhos, mas em todos os processos psíquicos mesmo em plena vigília. Se agora o leitor buscar a imaginação, todo um enredo pode se formar. Talvez não encontre lógica ou conexão com seus próprios sentimentos e pensamentos, mas um psicólogo treinado poderá facilmente enxergar o que está por trás da fantasia.

Continuemos na reunião mediúnica. Muitos podem justificar aqui que a manifestação “anímica” que ocorreu ainda assim é válida, pois um espírito está sendo tratado: o da médium. Poderiam ainda trazer o exemplo ditado por André Luiz em “nos domínios da mediunidade”, em que ocorre processo semelhante. A psicologia, no entanto entende que essa é uma maneira ingênua de se “tratar” esse conflito, uma vez que o mesmo será tratado pelo dialogador com palavras de bom ânimo, perdão e boa-vontade. Isso é “terapia” de sugestão e bons conselhos, prática há muito tempo abandonada pelos profissionais devido à superficialidade e consequente reincidência do conflito, que continuará existindo e fazendo com que a secretária esqueça-se de chamar a tal sócia, entre outras possibilidades ainda mais negativas.

Chegamos ao ponto fundamental: “isso é bom para quem?”

Se o leitor concordou comigo, essas idéias expressas nos posts, que muitos condenam por trazer uma suposta “incredulidade” e fazer com que as pessoas deixem de ter o “consolo” do espiritismo, podem ter nos confundido para responder claramente essa pergunta. Afinal, o que é melhor: encarar nossos anjos e demônios internos sem atribuir esses conflitos para terceiros ou continuar numa postura ingênua que pensa contatar os espíritos, mas, na prática, não pode nos dar qualquer prova disso?

Eu já vi em algum lugar

Em algum lugar alguém ouviu, alguém presenciou, alguém tocou e bateu-papo com um espírito. Obviamente não posso duvidar destes raros testemunhos, pois, eventualmente, partem de pessoas de caráter indiscútivel e bom-senso comprovado.

Mas me parece uma pretensão ingênua acreditar que a sorte de alguns me confira um método capaz de produzir seus feitos em toda parte. Reproduzir as condições vivenciadas por tais sortudos equivale a saber montar um telescópio enxergando as mesmas estrelas que eles. No campo mediúnico isso é simplesmente falso, pois na prática encontramos pessoas que acreditam sem nunca terem estado nestas mesmas condições, isto é, tocando, conversando ou obtendo mensagens identificáveis de espíritos. Pelo contrário, a regra consiste em médiuns que “um dia, num determinado momento, com certa pessoa” deram testemunhos de uma mediunidade convincente. E desde então, tudo que é dito, mesmo que de forma mediocre, vulgar, ou realmente inteligente e interessante, é considerado um conteúdo espiritual provindo do além.

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Me parece curioso a dificuldade de entender que não criticamos a possibilidade de comunições genuínas, mas, simplesmente, o comodismo e inocência de quem vê espíritos onde a psicologia teria muito a acrescentar, e acreditam que estão lidando com o assunto dizendo que os médiuns não são loucos e, portanto, mediunidade não é patologia. Logo se vê a inocência e preconceito psicológico, pois essa visão negativa do inconsciente já representa um recurso de defesa contra aquele outro lado de nossa alma, que nos acorda à noite, nos causa ansiedades, medos, fobias e perversões, mas que tem lugar de destaque no mundo mediúnico, já que não são problemas psicológicos, mas espíritos desencarnados carentes de atenção.

Eis a inversão: o que é simplesmente ignorado no dia-a-dia, e jogado para “baixo do tapete”, ganha papel de destaque nas reuniões mediúnicas, pois apesar de poder ser “anímico”, também pode ser espiritual, então é melhor dar atenção e publicar em livros quando assinar com um nome bonito.

Qual a dificuldade de reconhecer a necessidade de unir esforços, na busca de métodos capazes de alcançar o que  se buscava desde o início: provas incontestáveis da imortalidade da alma, para que as pessoas possam realmente “tocar” esse outro lado, através de fatos familiares e repetitíveis,  e não apenas através de um “eu já vi em algum lugar” ou “dá uma olhada na produção do Chico”…